Não satisfeito em entrar para a história como gênio da arquitetura, Oscar Niemeyer, no auge de seus 102 anos, resolveu virar compositor de samba. O arquiteto aproveitou o tempo que ficou internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul do Rio, e, em parceria com um dos enfermeiros que cuidou dele no Centro de Tratamento Intensivo, compôs a canção, que foi batizada de Caminhando.
Niemeyer ficou 24 dias no hospital. Ele deu entrada na unidade no dia 23 de setembro, com dores abdominais.
Na ocasião foi realizada uma tomografia de abdômen, que constatou colecistite aguda (cálculo na vesícula) e abscesso (pequena bolsa de pus) no fígado. Além disso, os médicos diagnosticaram um tumor no intestino grosso.
O parceiro do gênio, Caio Marcelo Júnior, contou que o samba foi composto em duas fases. A primeira foi durante a internação de Niemeyer, a segunda foi finalizada assim que o arquiteto teve alta hospitalar. A melodia ficou por conta do enfermeiro e a letra do samba, é toda de Niemeyer.
"Ele fez a letra, ele ia ditando e eu ia anotando. Depois pus a melodia. Primeiro ele fez a primeira parte, que ele queria que fosse uma homenagem ao presidente Lula. Mas depois desistiu, achou que seria propaganda política, e resolveu fazer a segunda parte", confessou Caio, completando: "A ideia partiu dele. Ele cismou um dia: vamos fazer um samba nosso, e aí fez o primeiro verso, e perguntou: será que isso dá uma música?".
O que Niemeyer escreveu
O arquiteto escreveu e o enfermeiro mostrou ao G1 a letra da primeira parte da música
Hoje em dia minha vida vai ser diferente
Calça de pijama, camisa listrada, sandália no pé
Andar na praia, vou fazer toda manhã
Até moça bonita vai ter se Deus quiser
Vou parar nos cafés para ouvir historinhas
Coisas da vida que um dia vão ter que mudar
Quero ser um mulato que sabe a verdade
E que ao lado dos pobres prefere ficar
Da minha favela eu olho os granfinos
Na praia de frente para o mar
Não devemos culpá-los, são os prestigiados
Que um dia entre nós vão voltar a morar
Banda de Ipanema
Por enquanto, o samba ainda não foi ouvido pelo pessoal da Banda de Ipanema, que presta uma homenagem a Oscar Niemeyer no carnaval de 2010 nos desfiles pelo bairro da Zona Sul do Rio. Mas pressa aos diretores da Banda é o que não falta. “Quero que o enfermeiro cante logo a música para podermos botar na pauta, para poder passar para os outros músicos. Mesmo que não seja para amanhã (sábado, quando a Banda de Ipanema fará o primeiro desfile do carnaval 2010), ainda neste carnaval vamos tocar esse samba do Niemeyer”, disse Cláudio Luiz Pinheiro, um dos fundadores da Banda.
Diretores do bloco entregaram nesta sexta-feira (29) a faixa comemorativa da homenagem para Niemeyer. Além de receber e vestir a faixa, o arquiteto deixou sua assinatura numa foto dele ampliada, que vai acompanhar os foliões pelos desfiles da banda no carnaval.
E Oscar Niemeyer, o que está achando disso tudo? “Acho ótimo, é espontâneo, eles estão muito entusiasmados, são gente boa”, disse ele, sem falsa modéstia ao comentar que, além de tudo, ajudou na confecção da camiseta do bloco de 2010. “Sou um operário, faço o que me pedem, espontaneidade e criatividade são a base”.
Segundo o bisneto de Oscar, Paulo Sérgio Niemeyer, o arquiteto fez adaptações a desenhos antigos para a camiseta e ajudou a escolher outros desenhos.
A Banda de Ipanema vai homenagear também personalidades que fizeram história na música brasileira, como Noel Rosa e Vadico e Adoniran Barbosa.
“A grande homenagem é a Oscar Niemeyer e às curvas d Brasil. Já homenageamos Oscar duas vezes, no início da década de 90 e quando ele fez cem anos. Essa ideia surgiu há 102 anos e quando surgiu a Banda, em 65. O Oscar é uma figura que todos se orgulham, o maior brasileiro vivo, somos devedores. O Oscar pertence à história do Brasil”, contou Cláudio, que disse que bom mesmo seria se o arquiteto pudesse aparecer no bloco, "nem que fosse por dois minutinhos": "Seria uma alegria na cidade".
Fonte: G1
http://www.arquitetura.com.br/noticias/noticia.php?idNot=1009